Embora quem entre neste site o faça para obter informações sobre negócios e este assunto nada tenha a ver com o contexto ou linha editorial deste veículo de comunicação, de certa forma tem a ver com todos nós – amigos, clientes, fornecedores, leitores, anunciantes. Todos somos pais, filhos, sobrinhos, amigos e a esta hora uma família chora pela perda de um de seus membros, de apenas 15 anos, pelas mãos de um dito trabalhador (porque teve sorte de nunca ser preso antes), um marginal – e não uma estrela da mídia.
Toda a sociedade acompanhou o caso. Cem horas que poderiam ser abreviadas se a imprensa fizesse APENAS seu papel ético: o de informar. Não de interferir nos fatos. Não o de tornar estrela de TV a marginalidade. Não de atrapalhar o trabalho policial que por si só – especialmente neste tipo de situação – já é tremendamente delicado.
Uma polícia desvalorizada por mais de década por parte de certo partido no governo estadual e que ainda assim continua cumprindo seu papel. Um governo que tem como base a proibição e usa qualquer argumento para responsabilizar terceiros, maquiando a própria intransigência, como foi visto no episódio frente ao Palácio dos Bandeirantes. Polícia contra polícia. Pais de família.
O triste evento no ABC paulista poderia ter sido encerrado antes, não fosse a busca irracional por números no Ibope. A polícia, que agora a imprensa aperta e tenta responsabilizar através de depoimentos de “especialistas” com imagens congeladas, inéditas e gráficos, teria feito sua parte dias antes não fosse o circo editorial que deu ao bandido todas as informações de que precisava e emparedou as autoridades.
Todos viram, todos comprovaram, a polícia posiciona atiradores de elite e a imprensa coloca a informação no ar – obviamente sem a autorização do comando militar – como se dissesse ao bandido: “olha, não apareça sozinho na janela senão nossa audiência vai cair se você morrer logo”.
A mídia irresponsável foi a câmera de segurança do marginal. Qualquer ação policial seria execrada pela mídia, policiais (pais de família) seriam punidos pelo bem da opinião pública.
Pois bem, obtiveram a audiência tão desejada. Porém, neste momento, não era uma menina de 15 anos quem deveria estar com uma bala na cabeça. Claro que o meliante também tem família, também tem mãe que sofre e deve ter sofrido muito, mas convenhamos: antes o choro pelo lado do marginal que pelo lado da vítima.
Não sou jurista, não sou advogado, não me cabe ser juiz, mas a mim cheira como cumplicidade em homicídio.
Também não tive notícias sobre comissões de direitos humanos, de um lado ou de outro, como estiveram na ocasião da rebelião na casa de detenção de São Paulo – o evento dos 111 – e logo depois na rebelião da Febem – este que tive a infelicidade de cobrir “in loco” – e destruiu um imenso patrimônio público pago com dinheiro do contribuinte. Nada de OAB, nada de senadores ou padres. Defender o bandido em uma situação em que a tragédia era eminente seria uma temeridade até para eles.
Não quero e não vou colocar na cruz Britos e Sonias, não sei o que rezam contratos com as emissoras, mas sei que pessoas acima destes se esquecem que também são ou serão pais, que também são filhos, que também estão expostos ao mesmo tipo de violência. Enquanto se discute exigência ou não de diplomas para exercício da profissão, jornalistas formados, graduados, reconhecidos fazem ou se deixam envolver no circo midiático. E envergonham a todos os profissionais sérios deste País. Outros, de certos programas sensacionalistas, são só sensacionalistas mesmo e mostram a falta de qualidade da programação.
Não me espantaria que agora partissem com a defesa de insanidade mental daquele que usa por nome um sobrenome conhecido, mas com letra trocada. Mas me pergunto sobre o tal Estatuto da Criança e do Adolescente que não se importou com a exposição contínua de duas menores, quando bandidinhos não podem ter seus rostos mostrados.
Espero, pessoalmente, que este marginal – do qual não quero sequer citar o nome – viva muito, esse personagem bizarro. Que tenha muito e muito tempo de solidão, de medo e de hostilidade que ele já conseguiu de outros presos antes de ser transferido de Santo André para Pinheiros.
Fosse homem de verdade, esse infeliz, se queria provar algo, teria provado seu amor dando um tiro na própria cabeça, oxalá frente às câmeras que o fizeram rei.
Do editor (pai de família)
P.S.: talvez o leitor não concorde em parte ou como um todo, cada um tem sua opinião que deve ser respeitada. Porém, independente disso, faça sua parte, use o que tem.
20/10 – Publicação do Terra Magazine: