Revista INCorporativa

17 Outubro 2008

São Paulo, por Washington Olivetto

Arquivado em: A cara do Editor — incorporativa @ 4:31 pm
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Como esta seção não tem obrigação alguma de ser condizente com a linha editorial do blog ou da Revista INCorporativa, publico abaixo um excelente texto deste que é um dos ícones da publicidade, um empreendedor nato, talentoso, admirável. Além disso, eu também sou paulistano. Segue:

Alguns dos  meus queridos amigos cariocas têm mania de achar São Paulo  parecida com Nova York.

Discordo deles.  Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não  conhece bem  a cidade. Ou melhor, quem a conhece superficialmente e  imagina  que São Paulo seja apenas uma imensa Rua Oscar  Freire.

Na verdade, o grande fascínio de  São Paulo é parecer-se com muitas  cidades ao mesmo tempo e,  por isso mesmo, não se parecer com  nenhuma.

São Paulo, entre muitas outras  parecenças, se parece com Paris no  Largo do Arouche, Salvador  na Estação do Brás, Tóquio na Liberdade,  Roma ao lado do  Teatro Municipal, Munique em Santo Amaro, Lisboa no 
Pari, com  o Soho londrino na Vila Madalena e com a  pernambucana  Olinda na Freguesia do Ó.

São Paulo é um  somatório de qualidades e defeitos, alegrias e  tristezas,  festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo, como o Fasano, o  Emiliano e o L’Hotel, mas também tem gente dormindo embaixo  das 
pontes.

Tem o deslumbrante  pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante  vegetação da  Cantareira, mas também tem o ar mais poluído do país.  Promove  shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove  acidentes  como o da cratera do metrô e o do avião da TAM em  Congonhas.

São Paulo é sempre  surpreendente. Um grupo de meia dúzia de  paulistanos significa um italiano, um japonês, um baiano, um chinês, um  curitibano e um alemão.

São Paulo é  realmente curiosa. Por exemplo: tem diversos grandes  times de  futebol, sendo que um deles leva o nome da própria cidade e  recebeu o apelido ‘o mais querido’. Mas, na verdade, o maior e  o mais 
querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica  perto da  Portuguesa e foi fundado por italianos, igualzinho ao  seu inimigo de  estimação, o Palmeiras.

São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas  chegou a  2007 tendo como celebridade o permissivo Oscar  Maroni, do afamado  Bahamas.

São Paulo já  foi chamada de ‘o túmulo do samba’ por Vinicius de  Moraes,  coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Germano Mathias  provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância discreta  de 
suas meninas, corretamente constatada por Caetano Veloso, produziu  chiques, como Dener Pamplona de Abreu e Gloria  Kalil.

São Paulo faz pizzas melhores que  as de Nápoles, sushis melhores que  os de Tóquio, lagareiras  melhores que as de Lisboa e pastéis de feira  melhores que os  de Paris, até porque em Paris não existem pastéis, 
muito menos  os de feira.

Em alguns momentos, São  Paulo se acha o máximo, em outros um horror.  Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.

São Paulo  teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora  são  os cariocas que andam imitando as suas imitações  paulistanas.

São Paulo teve o mau senso  de ser a primeira cidade brasileira a  importar a CowParade, uma colonizada e pavorosa manifestação de  subarte urbana, e  agora o Rio faz o mesmo.

Agora tem de  começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer,  coisa que  os ingleses já provaram ser perfeitamente possível com o  Tâmisa.

Mesmo despoluindo o Tietê,  mantendo a cidade limpa, purificando o ar,  organizando o mobiliário urbano, regulamentando os projetos  arquitetônicos,  diminuindo as invasões sonoras e melhorando o  tráfego, São  Paulo jamais será uma cidade belíssima. Porque a beleza  de São  Paulo não é fruto da mamãe natureza, é fruto do trabalho do  homem.

Reside, principalmente, nas  inúmeras oportunidades que a cidade  oferece, no clima de excitação permanente, na mescla de raças e  classes  sociais.

São Paulo é a cidade em que a  democratização da beleza, fenômeno  gerado pela   miscigenação, melhor se manifesta.

São  Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem  trabalharam  direitinho, coisa que se reconhece observando as  meninas que circulam  pelas ruas.

E se  confirma analisando obras como o Pátio do Colégio (local de  fundação da cidade), a Estação da Luz (onde hoje fica o Museu  da  Língua Portuguesa), o Mosteiro de São Bento, a Oca, no  Parque do  Ibirapuera, o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o  Sesc Pompéia, o  palacete Vila Penteado, o Masp, o Memorial da  América Latina, a Santa  Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e  mais uma infinidade de lugares  desta cidade que não pode parar, até porque tem mais carros do que  estacionamentos.

São Paulo não é  geograficamente linda, não tem mares azuis, areias  brancas nem  montanhas recortadas.

Nossa surfista  mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na  maioria, são  sociais.

Mas, mesmo se levarmos o  julgamento para o quesito das belezas  naturais, São Paulo se  dá mundialmente muito bem por uma razão  tecnicamente  comprovada.

Entre as maiores cidades do mundo, como  Tóquio, Nova York e Cidade do  México, em matéria de  proximidade da beleza, São Paulo é, disparado,  a  melhor. Porque é a única que  fica a apenas 45 minutos de vôo  do Rio de  Janeiro e o mais importante é que com essa distância  nenhuma bala perdida pode alcançar São Paulo !

Washington  Olivetto é paulista, paulistano e  paulistano.

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